“Acredite-me, Anna, palavras estão se tornando cada vez menos necessárias. Elas criam mal-entendidos.” – Sandro (Gabriele Ferzetti)
Antonioni realizou em 1960 umas de suas obras que edificou a gênese de sua trilogia da incomunicabilidade: L’avventura. A película habita a tênue marca do enigma que ressoa ainda até hoje a famigerada questão: Qual o paradeiro de Anna? Expectativa brilhantemente desmanchada pelo eco das ondas chocando-se nas pedras. Na sua premiere emitida pelo festival de Cannes, a trama foi ovacionada pelo público que certamente não estava preparado para assistir um trabalho que ia de encontro aos paradigmas vigentes da indústria main-stream.
O diretor italiano manejou esplendorosamente a subversão da linguagem cinematográfica apelando aos recursos da poética da imagem. Soube brincar seriamente com os planos, tecendo uma malha de articulações imagéticas engendrando uma operação que provocasse a sensação de uma atmosfera de isolamento tão presentificada pela sociedade deste país. Utilizou-se também da arquitetura como forma de expressão que estabelece uma relação entre sujeito e espaço laçando um ponto costurado a ser explorado pela lógica das concatenações.
A última vez que eu saboreei a sessão deste filme me ficou uma impressão: a dificuldade de se comunicar com o outro, por mais que existam ferramentas laboriosas nas ambiências lexicais, há sempre um resto indizível que não se deixa a entender. Não se escuta o que se fala. O zeitgeist capturado pelas lentes da câmera se debruça nas trivialidades da burguesia italiana, um nada que se tenta contornar utilizando recursos inúteis: o hotel ostentoso de Messina, a proposta marital de Sandro direcionada a Claudia, o festejo regado a muito champagne com direito a um affair comungado no sofá enquanto a aurora jazia pelas fenestras dos vitrais.
Comecemos então com a primeira dramaticidade pintada no ecrã: a viagem náutica de Anna, Sandro, Claudia e um grupo de amigos à ilha de Sicília. Anna demonstra-se desgostosa a Sandro no que tange a situação da relação amorosa deles, ela titubeia e pestaneja prevendo uma possibilidade de rompimento. Subitamente, o crepúsculo como cenário, Sandro percebe a ausência de Anna e clama seu nome inutilmente, a razão: sua noiva desvanece sem ínfimos vestígios. Claudia, sua melhor amiga, se encontra desesperada vociferando sua angústia provocada pelo sumiço injustificado. Essa é umas das cenas mais cativantes do longa-metragem: Sandro, Cláudia, Giulia, Corrado, Gloria, Patrizia, Raimondo circundando pelas pedras rochosas da ilha arquitetando uma mise-en-scene apelativa aos tropeços humanos. A falha na comunicação e a linguagem como uma muralha que separa um sujeito do outro. Não há comunicação a não ser pela via do mal-entendimento. A falta de sentido para as personagens é metaforizada pelo desencontro dos discursos, o silêncio ressoando a opacidade de uma sociedade italiana submissa as frivolidades jorradas de suas fontes de prazeres.
Com o progredir da narração fílmica, as personagens se mostram indiferentes ao destino de Anna, retomando suas vidas fatídicas e recheadas pelos artefatos efêmeros, não querem ao menos buscar a verdade do acontecimento. A verdade não a temos, mas ela nos tem e realiza um joguete de se esquivar entre os nossos dedos. É o furo que machuca nosso reflexo narcísico. O cinema seria também um espaço onde se esconde e mostra a verdade? O mistério do desvanecimento de Anna é equiparado à gênese da linguagem: não há respostas ou possíveis soluções. Quando percebemos que falamos, já estamos inseridos neste campo e quando percebemos que estamos corrompidos pela futilidade, o que há de se fazer? Foi o que Sandro possivelmente demonstrou quando esteve cabismeditado junto a Claudia diante do monte Etna (Sicília). Não há melhor título para obra do que “A aventura”, o homem confrontado pelo nada e a busca da significação através da palavra, essa matéria bruta que lança imagens acústicas para tentar explicar esse intervalo faltoso que nenhuma teoria há de corroborar completamente.
Texto costurado por Thiago Livon.





